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Momentos Obscuros da TV: Bom dia com Kellogg’s

Eu já falei de muitos casos obscuros, mas o que se segue agora é talvez o mais obscuro de todos. Provavelmente é a primeira vez que se fala disso [se falou disso, em 2005] na Internet de língua portuguesa. Mas eu decidi falar por ser um grande assunto, desses que só acontecem nos blogs. E o negócio é o seguinte:
[EDIT: O post é de 2005. Até agora, novembro de 2009, este continua sendo o único lugar da Internet onde este assunto é abordado, e o vídeo, a Internet continua devendo. E há INÚMEROS vídeos do Xou da Xuxa no YouTube – voltei a frequentar o YouTube em setembro por causa de um usuário que posta vídeos sérios, que não tem nada a ver com este assunto – mas nenhum retratando esse momento. Quem tem o original disso em VHS, publique pra gente ver!]

Em 1987 o Xou da Xuxa estava iniciando sua carreira de sucesso na Rede Globo – mas nada disso se deve à Globo, e sim à galera que gostava do Balão Mágico e resolveu não mudar de canal depois que ele acabou, e à outra galera que já via a Xuxa na Manchete e mudou de canal naquele agosto de 1986. Bom, pelo menos eu percebi isso. O Clube da Criança era de noite, eu também assistia ele, além do Balão – e flagrei, inclusive, o primeiro programa. Mas o tema do post não é este, senão não seria nada obscuro…

Naquele ano, um dos merchandisings do programa era o de um dos produtos mais conhecidos do mundo: os Sucrilhos Kellog’s. Se você não os comeu por falta de verba, pelo menos já gastou vários minutos ao menos olhando as caixas alguma vez.
No programa, alguém com a fantasia do Tigre Tony ficava o tempo todo no palco, durante o programa, como se fosse mais um dos personagens do Xou… Bem, o que acontece é que, chega a hora do programa em que surge aquele chavão “vamos falar de Sucrilhos Kelloggs”, e Xuxa interpelava a fantasia. Como se ela fosse capaz de falar
Aliás, pause. Devo ser um caso atípico, desde criança eu nunca tive fantasia nenhuma em relação a personagens. Sabia que o Bozo era feito por vários atores, que aquele pessoal na Disneylândia não era o Mickey nem o Pato Donald e por aí vai. Essa ilusão infantil durou muito pouco na minha vida, a ponto de eu não me lembrar se  alguma vez eu já tive alguma fantasia assim. Achava muito mais legal imaginar o que estava dentro daquelas máscaras, como eles enxergavam e conseguiam respirar, etc… (sei lá se foi assim que muitos cosplayers começaram sua carreira.)

Muito bem. Não me lembro de nada do que Xuxa dizia, só me lembro que o “Tigre Tony” cantarolava, repetidas vezes (devia ser uma gravação, claro) apenas uma curta frase: Bom dia com Kellogg’s. O slogan da empresa na época. Mas o que chamava a minha atenção era a voz que cantava aquilo, uma coisa impressionante. Uma voz grave, que me chamou muito a atenção – ainda mais para um pré-adolescente de 11 anos com alguma formação musical.  Não consegui gravar aquilo e nem dava, videocassete em 1987 era prerrogativa só dos adultos da casa (e também uma fita custava os olhos da cara, hoje em dia tenho quase 200 delas no meu quarto… e só uma com uns 25 minutos de 1986, provavelmente eu estava testando o videocassete, já que eu sabia perfeitamente usar gravador k7, e os comandos do VCR não são tão diferentes assim, exceto sintonizar os canais, coisa e tal).

O assunto ficou esquecido na minha mente até 1996, quando Xuxa resolveu convidar várias pessoas que já passaram por seu programa para um jantar. Um reencontro, 10 anos depois, comemorando seus dez anos de programas infantis na Globo. Eu que raramente assisto programas dela passei a ver quase todos daquela época, na esperança de conseguir ouvir aquilo de novo, que tinha me marcado tanto… mas nada. Nem dava². Mesmo por quê, trata-se de um merchandising, é praticamente impossível a emissora reprisar uma coisa dessas.
[EDIT: Em pleno outubro de 2009, há INÚMEROS vídeos do Xou da Xuxa no YouTube. Mas esse momento continua de fora… Quem tem programas de 1987 com o Tigre Tony, essa história aí, coloca aí pra gente ver!]

Mas o pior é que eu fui atrás e descobri.
Às vezes, a Internet permite aos loucos, de vez em quando, chegarem ao final de suas loucuras, e desvendarem certos mistérios outrora insondáveis. Descobri que voz era aquela. E que tantos outros mistérios da minha vida possam ser dissecados como este aqui o foi.

Thurl Ravenscroft nasceu em 1914 e faleceu em maio de 2005, aos 91 anos, de câncer na próstata. Aliás, descobri quem ele era quando ele ainda estava vivo, em 2003. Já estava aposentado desde 1995. Começou na carreira artística cantando no grupo The Mellomen, mas não tardou a gravar jingles e comerciais de rádio. Era para ser um artista de frente, acabou se tornando um operário da indústria musical, fazendo backing vocals e pontas aqui e ali, com trabalhos às vezes mal pagos e sem créditos!
Acabou sendo a voz de um personagem que nasceu no rádio, depois cresceu e desde 1985 é aquele brutamontes que vemos hoje em dia… ele mesmo, o tigre Tony.  Não sei até quando ele dublou o Tony, e nem sei como ele andava de voz já nonagenário, sei lá. Atualmente a voz do personagem é do narrador esportivo Lee Marshall – que já trabalhou junto com Thurl e desde 1998 a Kellogg’s já pensava nele como substituto deste.

O caso é que Thurl era dono de uma voz, digamos… deveras impressionante. Thurl era baixo profundo , ou seja, na classificação que começou no canto lírico e foi estendida posteriormente à música popular, seria o naipe mais grave de todos [EDIT: Segundo a Wilkipédia, existe o naipe chamado “basso superprofondo“, é provável que Thurl estivesse nessa categoria, uma vez que esses também conseguem cantar como barítonos].
Mas não é só isso. Segundo ouço falar, é difícil haverem pessoas nesse naipe que atinjam uma nota “dó” (C1), duas oitavas abaixo do dó central (C3 – anotem aí, fãs de Mariah Carey, vocês vivem se confundindo nesse assunto, é C3). Thurl, não bastando ter uma voz brilhante, ia além disso. O quanto, exatamente, não dá pra saber… parece que meio que evitavam explorar esse lado dele, é a impressão que dá (tanto é que muitos pensavam que ele era simplesmente barítono).
Mas algumas coisas escaparam: Na música Grimm Grinning Ghosts, que é trilha sonora da Disneyland ou Disneyworld, não sei exatamente (é uma atração bem das antigas), ele chega a um improvável A0.  Essa é apenas a nota mais grave de um piano padrão, de 88 teclas… Se ele conseguia dar menos do que isso, não sabemos, mas a voz ainda saía muito bem.

O que mais me impressiona é que Thurl parece que se divertia enquanto cantava. Um passarinho a 16 rotações por minuto. Um Caruso duas oitavas abaixo. Um Michael Jackson fase Jacksons Five [este phaleceu em 2009, como Marte e Júpiter já sabem] três oitavas abaixo. O sousafone humano. Talvez o rival que Elis Regina nunca conheceu, pronto. (Sério, gente: só Elis Regina cantava da mesma forma que Thurl Ravenscroft.) O que um cara desses cantaria no banheiro, eu me pergunto?…

Thurl também trabalhou muito para a Disney, em uma pá de desenhos animados e outros trabalhos, como discos infantis e áudio dos parques de diversões. O cara merecia uma condecoração ou algo assim por parte dessa empresa, eu diria que uns 5% da “Magia Disney” é mérito dele também. [PS: Ele teve, leia mais pro final.]

E segundo o site “All Things Thurl”, que existe desde quando ele ainda estava vivo, ele também fazia a voz do tigre Tony em espanhol. Contei este episódio do “Bom dia com Kellogg’s” pro webmaster e talvez fã número 1 de Thurl Brian Jacob, e ele me respondeu que não é improvável que tenha sido ele mesmo que gravou isso em português… O próprio Thurl já chegou a colaborar com o site quando estava vivo. Mancada minha eu não ter corrido atrás de mais informações já naquela época.
O site tem muitos áudios em formato Real Media, onde se pode conferir o que eu tanto falo aqui – mas ao contrário do que pode parecer, Thurl não tem a voz mais grave do mundo, não!… J. D. Sumner, amigo de infância de Elvis Presley, atingia o C0 – e cantando com letra e tudo o mais (esta é a nota mais grave dos raros pianos de 96 teclas da Bosendorfer, com 8 oitavas exatas). Dan Britton, um cantor de musica country (este ainda bem vivo), alcança ainda “menos” do que ele, e Tim Storms atinge uma nota que fica a umas 4 oitavas antes do teclado do piano começar, cuja frequência é de 8 hertz (A4=440Hz) – ele tem até problemas na hora de selecionar os equipamentos de som para suas apresentações, por conta disso (um  microfone padrão como o SM-58 da Shure capta no mínimo 20 Hz.)
Isso tudo antes de 2009, quando descobri o caso dos cantores russos (há partituras russas com notas estranhíssimas, como Bb-1.  Ao contrário de Thurl neste episódio, estes estão presentes no YouTube, procure por “russian basso profondo”.  Mas as vozes deles (até dos russos), perto da de Thurl, parecem meio sem graça… os russos pareciam motocicletas…
Thurl ganhou em 1995 o prêmio Disney Legends, por sua carreira como dublador/ locutor na Disney.
[ EDIT fev/2008: Esta outra página tem mais – muito mais – de Thurl Ravenscroft.]

Uma curiosidade suprema: O Brasil, aparentemente, teve o seu Thurl Ravenscroft – e o que é pior, até o nome é parecido… Túlio de Lemos, phalecido em 1977, foi a primeira voz do Jotalhão, nos comerciais do personagem para a Cica, e com certeza, assim como Ravenscroft, deve ter feito dezenas de trabalhos aqui e ali. Mas sua carreira é muito mais desconhecida que a de Thurl, a menos que alguém faça o site All Things Túlio. E também, aqui no Brasil, na música popular, parece que o pessoal nunca curtiu essas coisas, vide o sucesso que fazem ou fizeram cantores no “extremo oposto do dial”, como Byafra [Aquele do parapente…], Flávio Venturini, Ivan Lins, Ney Matogrosso, Zezé di Camargo, e por aí vai…
Se você não gostou deste post, as minhas desculpas, este não é o tom dominante dos textos deste blog, que geralmente são alegres e divertidos, não são que nem o programa do Guiness Book…